Existe uma cena que se repete em quase toda tabacaria: a prateleira está cheia, o estoque está "abastecido", e mesmo assim falta dinheiro no caixa para pagar o fornecedor na sexta.

 

Não é contradição. É diagnóstico. Estoque cheio e caixa vazio significam a mesma coisa — seu dinheiro está parado na prateleira errada.

 

A curva ABC é a ferramenta que mostra exatamente onde ele está.

O que é a curva ABC, sem enrolação

É uma classificação que separa seus produtos em três grupos, segundo o peso que cada um tem no resultado da loja:

 

Classe

Representa

Peso no resultado

A

~20% dos itens

~80% do resultado

B

~30% dos itens

~15% do resultado

C

~50% dos itens

~5% do resultado

 

A conclusão prática é dura e libertadora: metade do que você tem na loja responde por quase nada. Essa metade está consumindo espaço de prateleira, capital de giro e sua atenção na hora de comprar.

O erro que quase todo lojista comete

A maioria monta a curva ABC por faturamento — ordena os produtos pelo que mais vendeu em reais e pronto.

 

Isso esconde o problema. Um produto pode liderar o faturamento e estar entre os piores em lucro, porque a margem é apertada. É o caso clássico do cigarro industrializado na tabacaria: gira muito, fatura alto e deixa pouco. Ele é essencial — traz o cliente para dentro da loja — mas não é ele que paga suas contas.

 

Por isso, monte duas curvas:

 

  1. Curva ABC por faturamento — mostra quem traz movimento

  2. Curva ABC por margem de contribuição — mostra quem traz lucro

 

O cruzamento das duas é onde está a decisão.

Como montar, passo a passo

Você precisa de uma planilha e do histórico dos últimos 3 meses. Não precisa de sistema caro.

Passo 1 — Levante os dados por produto

Para cada item, quatro colunas:

 

  • Quantidade vendida no período

  • Preço de venda unitário

  • Custo unitário (o que você pagou ao distribuidor, com impostos e frete rateados)

  • Estoque atual em unidades

Passo 2 — Calcule a margem de contribuição

Margem de contribuição unitária = Preço de venda − Custo unitário

 

Margem de contribuição total    = Margem unitária × Quantidade vendida

 

Essa é a conta que importa. É quanto cada produto realmente deixou no seu caixa no período.

Passo 3 — Ordene e acumule

Ordene a planilha pela margem de contribuição total, do maior para o menor. Crie uma coluna de percentual acumulado.

 

  • Do topo até somar 80% → classe A

  • De 80% até 95% → classe B

  • De 95% até 100% → classe C

Passo 4 — Leia o resultado

Um exemplo simplificado, com números redondos para facilitar:

 

Produto

Vendas (un)

Margem un.

Margem total

% acum.

Classe

Linha de papel A

420

R$ 4,20

R$ 1.764

34%

A

Acessório metálico

95

R$ 12,00

R$ 1.140

56%

A

Filtro/piteira

380

R$ 2,80

R$ 1.064

76%

A

Isqueiro comum

260

R$ 2,10

R$ 546

87%

B

Item importado X

18

R$ 22,00

R$ 396

95%

B

Item decorativo Y

6

R$ 15,00

R$ 90

97%

C

Item parado Z

2

R$ 30,00

R$ 60

100%

C

 

Repare no "Item parado Z": tem a maior margem unitária da tabela e é o último da lista. Margem alta em produto que não gira é margem que não existe.

O que fazer com cada classe

Classe A — nunca deixe faltar. Ruptura em item da classe A é o erro mais caro do varejo. O cliente não espera: ele vai na loja da esquina, e muitas vezes não volta. Trabalhe com estoque de segurança e antecipe o pedido.

 

Classe B — mantenha, observe. É a zona de transição. Alguns itens B viram A com um pouco de exposição melhor; outros estão caindo para C. Revise a cada trimestre.

 

Classe C — questione a existência. Para cada item da classe C, faça três perguntas:

 

  1. Ele traz cliente para a loja mesmo vendendo pouco? (Se sim, mantenha o mínimo.)

  2. Ele completa uma linha que o cliente espera encontrar? (Se sim, mantenha uma unidade.)

  3. Ele está aqui só porque veio num pedido antigo? (Se sim, liquide.)

 

Item de classe C sem justificativa é dinheiro imobilizado. Liquidar com desconto e transformar em capital de giro quase sempre é melhor negócio do que segurar esperando vender pelo preço cheio.

Como isso muda sua próxima compra

Aqui está o retorno prático. Com a curva ABC na mão, seu pedido ao distribuidor deixa de ser feito por memória e passa a ser feito por critério:

 

  • Classe A entra em toda compra, em caixa fechada, com estoque de segurança

  • Classe B entra conforme o giro do mês anterior

  • Classe C só entra sob encomenda do cliente

 

O efeito imediato é liberar capital que estava preso em prateleira parada e redirecioná-lo para os itens que sustentam o lucro. Em muitas operações, isso resolve o aperto de caixa sem precisar de empréstimo.

Com que frequência refazer

A cada trimestre. O mix muda: lançamentos entram, marcas perdem tração, sazonalidade desloca o giro. Uma curva ABC de um ano atrás descreve uma loja que não existe mais.

 

Anote a data em que fez cada versão e guarde as anteriores. Comparar as curvas ao longo do ano mostra tendência — e tendência é o que permite comprar antes da demanda, não depois.

 

 


 

Perguntas frequentes

Preciso de um sistema de gestão para fazer a curva ABC? Não. Uma planilha com quatro colunas e o histórico de três meses é suficiente. Sistema ajuda na velocidade e na atualização automática, mas o método é o mesmo e funciona no papel.

 

Qual período devo analisar? Três meses é o mínimo para ter representatividade. Se sua loja tem sazonalidade forte, use doze meses e faça também uma leitura mês a mês para identificar os picos.

 

Um produto da classe C pode virar classe A? Pode, e acontece com frequência quando o problema não era o produto, mas a exposição. Antes de eliminar um item C, teste movê-lo para um ponto de maior visibilidade por 30 dias. Se não reagir, aí sim a decisão está tomada.

 

 


 

 

Conteúdo produzido pela VR Distribuidora, distribuidora de tabacaria em Volta Redonda (RJ) que atende lojistas em todo o Brasil. Venda exclusiva para maiores de 18 anos.

 

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